Por: Marco Clivati –

Não levava nada na bagagem. Seguia sem destino, confiante. Passava despercebido, sem alarde. Andava descalço, sem deixar pegadas, mas tocava o coração daqueles que cruzava. Seguia leve como o ar, perene como a luz do sol. Cada passo seu era consciente, entregue ao presente.

Era capaz de atravessar rios furiosos, matas fechadas, mas não buscava aventuras. Com a coragem de um guerreiro, subia até os cumes mais elevados e iluminados e enveredava-se por vales escuros e profundos. Não tentava pegar atalhos e encarava de coração aberto todas as armadilhas.

O peregrino caminhava em direção a sua própria verdade. Não tentava fugir de si mesmo. Não olhava para o chão, para o céu nem para o horizonte. Seu olhar era para dentro. Sabia que em sua jornada o maior inimigo era a própria mente. Era ela, sua mente, que criava as cercas de arame farpado que o machucava e impedia de sentir as águas do oceano da paz. Seguia sem ambições. Tinha a sabedoria de que o desejo da busca já o tornava prisioneiro da vontade. Ia confiante, em solitude, com alma entregue à vida. Uma jornada de libertação.

Até hoje, o peregrino vaga sem destino, sabe que sua viagem não tem fim. Anda por aí a despertar outros peregrinos adormecidos, rumo ao caminho da liberdade.

Esse texto foi retirado da Revista dos Vegetarianos, seção Editorial, edição 120.