Autor: Samira Menezes –

 

O ideal para a saúde seria que, além de pratos, talheres e copos, todo mundo levasse à mesa um pouco de silêncio e serenidade. Assim, quieto e com atenção ao alimento e aos efeitos que a alimentação provoca no corpo, seria possível evitar de problemas ocasionais, como estufamento e azia, a problemões crônicos, como o excesso de peso e todas as doenças relacionadas a ele. Adicione a esta receita de saúde uma pitada generosa de calma durante a mastigação e você verá “milagres” acontecerem, como a perda de peso. De acordo com a Prática Budista de Alimentação Consciente, se dedicar com tranquilidade e gratidão aos momentos das refeições, resolve não só problemas digestivos, mas também a compulsão por comida e a mania de comer alimentos pouco nutritivos, como doces e fast food.

E a prática tem se mostrado tão eficiente que até mesmo especialistas da Universidade de Saúde Pública de Harvard resolveram pesquisar mais a fundo o método, que envolve ficar em silêncio durante a refeição, mastigar devagar, observar a textura, o sabor e o aroma dos alimentos. “O ritmo de vida está cada vez mais rápido, mas não se tem a mesma consciência e a mesma capacidade de olhar para dentro. É por isso que comer consciente está se tornando cada vez mais importante, pois as pessoas se devem perguntar: ‘O meu corpo precisa disso? Por que será que eu estou comendo isso? Será que é apenas porque eu estou triste e estressado?’. Então, seria bom, nos primeiros minutos da refeição, comer em silêncio e desfrutar da comida”, observa a nutricionista Lilian Cheung, de Harvard, que tem pesquisado os benefícios da alimentação consciente.
 

Na prática

Praticar a alimentação consciente deveria ser algo simples, se não fosse a vida corrida que obriga a comer qualquer coisa em qualquer lugar e os problemas psicológicos que levam algumas pessoas a comerem muito mais do que deveriam e a fazer escolhas erradas. Quem nunca abriu a geladeira porque “estava com fome de alguma coisa” e, em vez de escolher a cenoura ou a maçã, pegou um pedaço de bolo de chocolate. Ou ainda: quem nunca almoçou um sanduíche qualquer, indo para algum encontro de trabalho.

Mesmo nesses casos em que a única opção é um sanduíche rápido, os professores budistas ensinam que a pessoa o faça com calma e muita mastigação. Mesmo um sanduíche deve durar pelo menos cinco minutos. “Sugiro uma mudança gradual para a alimentação consciente, por exemplo, programando um dia na semana para realizá-la ou desfrutando os cinco primeiros minutos de cada refeição com essa prática”, sugere Lilian.

E sem afobação na hora de comer. Leve a primeira garfada à boca, com calma. Não converse. Mastigue bastante até que a comida sólida se transforme em algo pastoso. Pense nas propriedades daquele alimento, no que foi preciso para ele ser produzido (desde o sol até o trabalho do agricultor). Enfim, medite.

Também faz parte da prática não chegar às refeições com muita fome para não “atacar” um prato grande de comida em poucos minutos. “O importante é manter-se consciente sempre. Sentir o alimento chegando ao estômago e a saciedade aumentando. Isso será mais fácil de fazer se você não estiver faminto. Procure não chegar a esse ponto, porque fome desesperada significa que você esteve ausente de si por bastante tempo. Tenha lanches saudáveis no trabalho, no carro, na bolsa, na geladeira e procure se alimentar ao longo do dia. ‘Acordar’ só com o cheiro inebriante de uma pizza ou de uma fritura agride demais a saúde”, ensina a chef Rosa Fonseca, da À Moda da Casa. Mas se o seu problema é a fome psicológica, os professores budistas ensinam que antes de abrir a geladeira ou a despensa, é importante dar um respiro e perguntar a si mesmo: “Eu estou mesmo com fome?”. Se a resposta for não, faça outra coisa, como sair para uma rápida caminhada.

“A fome psicológica não é só fome de alimento. É também fome de algo que é representado por esse alimento. A pessoa quer se sentir amada, importante e, quando não consegue suprir esta carência de outras maneiras, entra nesse círculo de comer e, quanto mais come, mais se sente infeliz, porque é claro que a comida não preenche esse vazio”, explica a psicóloga Maria Inês Bittencourt.

 

Mastigue mais um pouco

Se você não tem paciência para colocar em prática a alimentação consciente, pelo menos comece a mastigar mais. Esse ato tão simples facilita a digestão, estimula o centro de saciedade no cérebro, evita que a barriga se estufe após a refeição, dá início à quebra molecular dos carboidratos (que começa quando ele entra em contato com a saliva) e ainda ajuda a perder peso. “Se a pessoa come muito rápido e não mastiga o alimento até ele ficar mais pastoso, o corpo não entende que o indivíduo está ingerindo a quantidade suficiente de comida. O tempo para a ação dos hormônios que promovem a saciedade diminui quando a mastigação é inadequada, fazendo com que o consumo de alimentos aumente, o que favorece o ganho de peso”, revela a nustricionista Fabiana Tentardini, do Grupo Hospitalar Conceição, do Sistema Único de Saúde (SUS).

Ela explica ainda que quando se mastiga mal, as partículas dos alimentos não são totalmente quebradas e isso desequilibra todo o processo digestivo. “O ato de mastigar tem uma função mecânica e constitui a primeira fase do processo digestivo. Por conta do ‘corre-corre’, as pessoas acabam comendo muito rápido. Assim, as macromoléculas que ingerimos provocam uma sobrecarga no pâncreas e intestino, gerando gases, mal estar e indigestão abdominal.” Para evitar isso, algumas correntes falam em mastigar o alimento 17, 30, 50 ou em até 70 vezes antes de engolir, mas claro que isso depende do tipo de alimento. O importante é que ele esteja bem pastoso ou quase líquido.

Não custa lembrar que dedicar esse tempo à mastigação fica mais fácil quando o ambiente externo colabora para isso. Por isso, recomenda-se que o local da refeição seja silencioso e agradável, enfeitado com velas, flores ou qualquer outra peça decorativa que ajude a criar um ambiente sereno e de gratidão ao alimento. “Pode parecer antiquado, mas fazer uma prece em gratidão ao alimento antes da refeição é tão bacana. Agradecer o Universo pelo fato de ter alimento e pedir que aqueles nutrientes sejam um bálsamo sagrado capaz de recompor cada parte sua, é um convite a ter uma alimentação consciente”, sugere a chef Rosa Fonseca.

 

Esse trecho foi retirado da Revista dos Vegetarianos, seção Especial, edição 90.