Por Valkiria Assis, nutricionista, pesquisadora e colunista da Escola de Nutrição

A microbiota intestinal é um conjunto de bactérias que habitam o intestino e que desempenham importantes funções metabólicas, sendo considerada o “segundo cérebro” do corpo. Ela é composta por bactérias boas e ruins. Quando há um desequilíbrio entre esses microorganismos e os patogênicos prevalecem, ocorre uma disbiose (desregulação da microbiota), que está relacionada ao desenvolvimento de diversas doença, como diabetes mellitus tipo 2, doenças cardiovasculares e síndrome metabólica. Os sintomas da disbiose intestinal incluem: distensão abdominal, náuseas, gases, vômitos, constipação, diarréia, dores abdominais. E recomenda-se o tratamento com nutricionistas e médicos capacitados para lidar com o quadro.

Os três fatores que mais impactam na microbiota intestinal são: tipo de parto, uso de antibióticos e alimentação.
Hábitos alimentares têm grande impacto na regulação da microbiota. Há diversos estudos investigando o papel de uma dieta vegetariana baseada em alimentos naturais, vegetais e integrais na composição da microbiota intestinal.
A diversidade e os tipos de bactérias variam de acordo com o substrato que é gerado para elas por meio da alimentação. As bactérias que trazem mais efeitos positivos à saúde são alimentadas por fibras e carboidratos, naturalmente presentes nos alimentos de origem vegetal. Consumir alimentos ricos em fibras (frutas, legumes, verduras, cereais, etc), evitar adoçantes artificiais, alimentos ultraprocessados, álcool, tabagismo e automedicação são passos fundamentais para o cuidado da microbiota intestinal e saúde como um todo.

A maior parte das pesquisas indicam que o consumo de proteínas é correlacionado com maior diversidade da microbiota intestinal, entretanto, há diferenças significativas se a fonte é vegetal ou animal. Alto consumo carnes (com elevada quantidade de gordura) geram menor abundância de bactérias que metabolizam polissacarídeos, uma classe de carboidratos. A gordura saturada (presente em carnes, ovos, laticínios, coco e derivados, e óleo de palma) tem capacidade de aumentar a permeabilidade intestinal e gerar um quadro inflamatório e disbiose, portanto, o consumo desses alimentos não deve ser alto. A gordura trans − ingrediente comum em alimentos ultraprocessados − também reduz “bactérias boas” e aumenta a proporção de bactérias patogênicas.

Os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) são substratos do consumo de alimentos vegetais, naturais e integrais e atuam na manutenção da barreira intestinal e previnem endotoxemia e seus efeitos inflamatórios secundários. Têm ação protetora no diabetes tipo 2, na doença inflamatória intestinal e nas doenças autoimunes, além de promoverem imunidade contra patógenos, manterem a função da micróglia e a integridade da barreira hematoencefálica.

Uma microbiota intestinal saudável colabora com a conversão de colesterol em coprostanol, desfavorece o ciclo êntero-hepático e reduz os níveis séricos de colesterol. No contexto de doenças cardiovasculares, as dietas mediterrânea (baixo consumo de produtos animais) e vegetariana são as que mostram o melhor perfil metabólico cardiovascular, com aumento de AGCC e com menor produção de TMAO e ácidos biliares secundários que seriam prejudiciais.

Portanto, vegetarianos com uma dieta baseada em plantas, com consumo regular de carboidratos com fibras (frutas, legumes, verduras, cereais, leguminosas etc), assim como menor ou nulo consumo de proteína animal com gordura (vegetarianos estritos e veganos), ultraprocessados, álcool e tabaco, tendem a ter uma menor absorção de colesterol e melhora na saúde intestinal e cardiovascular.

Referências:
Slywitch, Eric. Guia de Nutrição Vegana para Adultos da União Vegetariana Internacional (IVU).
Departamento de Medicina e Nutrição. 1a edição, IVU, 2022.